Pílulas escocesas de Anderson As Pílulas Escocesas de Anderson foram um dos primeiros medicamentos a receber patente na Inglaterra, com origem na década de 1630. Seu inventor, Patrick Anderson, um escocês que afirmava ser médico do rei Carlos I, desenvolveu a fórmula com base na “Grana Angélica”, uma pílula cuja receita ele dizia ter aprendido em Veneza. Antes de morrer, Anderson transmitiu o segredo da fórmula à sua filha Katherine, que, em 1686, o repassou ao médico Thomas Weir, de Edimburgo, capital da Escócia.
Em 1687, Weir obteve do então rei da Inglaterra, Jaime II, uma carta-patente que lhe concedia direitos exclusivos da produção das pílulas. Não se sabe ao certo se a patente foi solicitada para se proteger da concorrência já existente ou se, ao contrário, acabou atraindo o interesse de imitadores. De todo modo, no final do século XVII, se iniciou uma intensa disputa entre diversos fabricantes que reivindicavam a fórmula das “verdadeiras” Pílulas de Anderson.
A patente de Weir foi uma das primeiras no campo médico e refletiu a prática real da época de conceder monopólios a inventores. No entanto, após a Revolução Gloriosa (1688), o poder de conceder patentes sem aprovação parlamentar foi limitado. Apesar disso, as Pílulas de Anderson continuaram a ser produzidas e comercializadas por décadas, tornando-se um exemplo clássico da disputa por autenticidade e do marketing agressivo que caracterizou os remédios patenteados nos séculos XVII e XVIII.
Ao longo do século XVII, poucas patentes médicas foram registradas oficialmente, a primeira patente para um remédio composto só surgiu em 1711, abrindo caminho para casos como o de Benjamin Okell, que mais tarde patentearia as Gotas Peitorais do Dr. Bateman. Esse sistema marcou o início da proteção legal para medicamentos, embora a concorrência e as falsificações continuassem sendo um desafio constante.
Primeiro medicamento patenteado e sintetizado No final do século XIX, a medicina enfrentava sérias dificuldades no abastecimento de medicamentos essenciais como a quinina, extraída da casca da árvore da quina e usada no tratamento de febres e malária. A planta não era nativa da Europa, e as rotas comerciais eram controladas por potências coloniais como a Inglaterra. Assim surgiu o interesse em sintetizar drogas que pudessem ser produzidas localmente, a partir de recursos abundantes, como o carvão. Foi nesse cenário que, em 1883, o químico Ludwig Knorr sintetizou a antipirina (também conhecida como fenazona), um composto com ação antipirética e analgésica. Utilizando a fenilhidrazina, descoberta por seu mentor Emil Fischer, e ésteres de acetoacético, Knorr produziu um novo medicamento totalmente sintético, dando origem à antipirina, considerada a “mãe” de todos os analgésicos antipiréticos modernos. O processo resultou na formação de um anel pirazolona, uma estrutura inédita com propriedades farmacológicas promissoras que marcou um ponto de virada: foi o primeiro fármaco completamente sintético, sem qualquer origem vegetal ou animal.
FIGURA 2 – Molécula da antipirina Fonte: fisher scientific
Pouco tempo após sua descoberta, Knorr solicitou a patente do processo de síntese, e em 22 de julho de 1883, foi concedida a patente com o título: “Procedimento para a preparação de hidroxipirazóis por meio da ação de ésteres de acetoacético, seus produtos de substituição e homólogos sobre a hidrazina.” Essa patente foi fundamental por alguns motivos:
● Representou a primeira proteção legal conferida a um medicamento sintético puro;
● Foi licenciada para a empresa Hoechst, um pequeno fabricante de corantes à base de anilina que viria a se tornar um gigante da indústria farmacêutica;
● Serviu como modelo jurídico e comercial para o patenteamento de fármacos no século XX.
Emil Fischer inicialmente não apoiava a ideia de patentear o composto, pois temia que isso limitasse o avanço da ciência. No entanto, após ponderações sobre a importância prática e econômica da descoberta, mudou de opinião e deu seu aval para que Knorr seguisse com o pedido.